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Os Kunas Yalas! Mais uma experiência surpreendente

Gabriela Muniz Volta ao Mundo 3 Comments

Quando estávamos no Panamá, muitas pessoas nos recomendaram uma visita ao arquipélago de San Blas. Trata-se de um conjuntos de ilhas paradisíacas no meio do caribe, com águas transparentes, areia branca e muitos coqueiros! Típica paisagem de cenário de filme. Amamos praia e sol e não pensamos duas vezes em visitar o local! O que não esperávamos é que viveríamos uma das experiências culturais mais ricas de nossa viagem!

O arquipélago é habitado e controlado por indígenas conhecidos como Kuna Yalas. Eles vivem de forma independente do Panamá, tem uma cultura incrível, usam roupas muito bonitas e coloridas e parece que pararam no tempo se compararmos com a nossa forma de vida nas grandes cidades!

Pouco antes de viajar para lá, tínhamos lido um pouco a respeito desse povoado mas na net todos diziam que era muito difícil conhecer a fundo a cultura Kuna já que eles não são muito amigáveis e são muito fechados com turistas. Fomos para lá sem nenhuma expectativa. Nossa intenção era curtir o sol e relaxar depois de muitos dias de chuva no norte do Panamá!

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Nos hospedamos numa ilha maravilhosa e muito pequena e fomos muito bem recebidos pelo Tony, um Kuna que viveu boa parte de sua vida na Cidade do Panamá! Nos contou que voltou para San Blas para casar e que dali em diante continuaria ali cuidando das cabanas que nos hospedamos junto com sua mulher e filhinho de 2 meses! Ele era muito simpático e nos dava muito abertura para conversar e trocar ideias! Ele criou uma empatia muito grande com o Di desde o início e acredito que isso nos ajudou muito a chegar mais perto dos Kunas.

No mesmo dia em que chegamos, Tony nos contou que no dia seguinte haveria uma grande festa numa ilha estritamente kuna, que duraria 4 dias! E nos convidou para ir! Claro que aceitamos na hora! Seria uma experiência realmente diferente! Eles celebravam a transformação de uma menina kuna para mulher! E por isso beberiam muito e dançariam por 4 dias seguidos! Mal podíamos esperar para conhecer a tal da festa.

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No dia seguinte subimos no barco e fomos para a tal da ilha. Descemos num píer de madeira em meio a muitos barracos, chão de terra, lixo para todos os lados e alguns curiosos nos observando de cima abaixo. Tivemos a certeza que veríamos ali algo muitíssimo longe de nossa realidade.

Entramos na comunidade seguindo Tony e na primeira rua vimos inúmeras mulheres kunas, com suas roupas coloridas e os braceletes de miçangas nos braços e nas pernas que cobrem quase todo o corpo, parecendo uma roupa! Homens alegres, bêbados e simpáticos que se aproximaram de nós para dar as boas vindas! Crianças brincando e correndo sem roupa e descalças! E ainda mais lixo! Sentimos de forma muito intensa a alegria do lugar e isso é difícil de transmitir em palavras!

Andamos pelas ruas e entramos num barracão aonde a grande festa já tinha começado! Homens sentados de um lado e mulheres de outro. Pessoas bebendo uma bebida estranha em um coco e brindando de um jeito engraçado. Mulheres em fila, todas de pé, fumando cachimbos e falando palavras estranhas! Um cheiro forte de tabaco e álcool impregnava o lugar! Os homens mais sábios vestiam camisas rosas e calças pretas! Ficamos ali extasiados assistindo tudo! Alguns cuspiam no chão em que outros pisavam sem o menor problema. De repente se aproximaram de nós e nos ofereceram a bebida que tomavam e tivemos que brindar e tomar do mesmo modo que eles! De uma vez só! Todos ali pareciam estar num transe hipnótico!

Em um certo momento vi o Di conversando com um senhor bem mais velho! Era o chefe da tribo! Muito aberto e simpático! Nos ensinou muito sobre os Kunas. Foram uns 40 minutos de um aprendizado que nunca teríamos na sala de aula! E absorvíamos tudo com muito interesse e curiosidade!

Ele nos contou que os Kunas são independentes do governo do Panamá. Eles tem suas escolas e hospitais nas próprias ilhas. Cada tribo tem 7 líderes e toda vez que algum falece já há outro sendo preparado para assumir o posto há tempos e um novo líder é colocado no sétimo posto! Eles precisam estudar muito e saber todos os assuntos para assumir, principalmente de política e de tradições Kuna! Há aproximadamente 60 mil Kunas atualmente espalhados nas ilhas de San Blas, na Cidade do Panamá e no norte da Colômbia.

Perguntamos ao líder qual é a maior ameaça que ele enfrenta hoje em dia. A maior preocupação deles é o turismo pois eles temem que sua cultura e tradição se percam ao longo dos anos. Os líderes fazem reuniões semanais para ensinarem a cultura ao seu povo! Para manter a cultura viva, resolveram colocar kuna e espanhol na escola, o que não é muito comum em outros povoados.

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Nos deu também outras informações variadas sobre o meio de vida deles. Nos contou que eles costumam comprar  roupas e utensílios de navios colombianos, e que a moeda de troca com estes navios são cocos!!! É um acordo firmado entre os Kunas e os colombianos há tempos, e os colombianos não podem negar! Nos disse que o dinheiro local deles, o coco, não é aceito pelo governo panamenho, pois eles não tem fábricas que processem cocos.

Já a situação sanitária é triste: o banheiro deles é o mar! Eles tem dificuldades com água potável e, diariamente, os homens vão até o continente para buscar água nas montanhas e alimentar as ilhas.

Foi uma conversa muito bacana e saímos de lá tontos com tanta informação.

Continuamos andando pela ilha para conhecer a forma de vida das pessoas. As mulheres definitivamente não são nada simpáticas e nem abertas. Nos olham feio e não respondem quando cumprimentamos ou fazemos alguma pergunta. Sempre é o homem quem faz contato com os turistas e talvez essa seja a razão de tanta timidez e falta de abertura.

Entramos na pequena escola que tem pouquíssimas salas de aula, sendo que algumas tem chão de terra. Mais uma vez ganhamos uma aula da professora panamenha, que nos contou um pouco de sua experiência com muita paixão pelo que faz! Ela faz parte de um grupo que leva ensino apropriado a áreas distantes do Panamá. Os alunos de 13 a 15 anos aprendem todas as matérias para que tenham possibilidades de tentar uma faculdade ou curso técnico na capital, caso desejem futuramente. Ela nos mostrou os materiais escolares com muito orgulho e nos contou que ali eles aprendem até inglês! Ela ensina em espanhol e eles conversam com ela em kuna! É uma troca diária segundo ela! A professora ama o que faz e fica duas semanas na ilha isolada sem quase nenhuma estrutura de saneamento básico. A família dela não entende mas o prazer de ver as crianças aprendendo é o que a faz feliz!
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A cada passo a experiência naquela pequena ilha nos transformava de alguma maneira. Ver a vida acontecendo de uma forma tão rudimentar é algo que nos faz parar para refletir, que nos faz parar de prejulgar tudo aquilo que não conhecemos, nos faz sentir tão materialistas por conta da necessidade de todos os aparatos que nós da cidade grande precisamos para viver, enfim nos faz ver que é possível viver de inúmeras maneiras, respeitando cultura e tradições tão importantes para um povo!

Continuamos nossa caminhada com o Tony e chegamos ao hospital. Que diferença de todo o resto da comunidade! Uma construção grande e novinha para os parâmetros da ilha! Foi doada pelos EUA. O Tony nos mostrou com muito orgulho a sala em que seu filhinho nasceu e nos contou que ele foi o segundo bebê a nascer naquele hospital! Conhecemos os médicos de plantão e o enfermeiro! Todos da Cidade do Panamá e muito simpáticos. Assim como a professora, trabalham na ilha  por duas semanas e ficam em casa por alguns dias. Eles moram no hospital e nos contaram muitos fatos interessantes.

Disseram que ali ainda há muita mortalidade infantil, mas eles não sabem mensurar. As principais doenças atendidas por eles diariamente são parasitas e problemas respiratórios. Como não há saneamento básico, as crianças brincam em meio ao lixo e ficam muito expostas a doenças. As mulheres tem uma média de 10 a 12 filhos e, antes do hospital,  tinham os filhos em casa com uma parteira. Agora eles estão estimulando o nascimento no hospital pois muitas mulheres morriam ao dar a luz. Apesar das boas instalações do hospital, além do parto, eles só conseguem fazer procedimentos básicos e sofrem muito por isso.

Foi uma visita completa. Passamos uma tarde inteira dentro da comunidade Kuna! Aprendemos com os líderes e com aqueles que ajudam a construir a comunidade, vimos como eles celebram seus momentos, bebemos com eles, brindamos com eles e apesar de tudo que lemos, nos sentimos extremamente bem vindos e acolhidos.

Saímos de lá muito felizes e pensativos ainda com muita informação para ser absorvida em um espaço tão pequeno de tempo. Ouso dizer que fomos abençoados com esses momentos e tentamos transmitir aqui como fomos tocados por essa experiência.

Esse povo nos inspirou e nos marcou. Acredito que o tempo nos ajudará a entender melhor a maneira como vivem e como respeitam as suas tradições e estou certa de que nos fará pessoas melhores em muitos sentidos!

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Comentários

Comments 3

  1. Naldo

    Nossa Gabi… espetáculo de texto! Poder ler e imaginar a aventura de vocês não tem preço! Muito rico e mágico tudo que vcs estão passando! Saudades de vcs dois! Bjos

  2. Marcio

    Qhe show esse post Gabi! ja estive no Panama, mas meu contato com a cultura e com o povo foi muito superficial. Lendo isso me faz repensar meus objetivos como turista. Na verdade o contato com pessoas esquecidas ou que estao à margem da sociedade revela, muitas vezes, a grandeza de coisas simples, não é ? Espero que sues posts ajudem de alguma forma tambem essas pessoas. Bj

  3. Eliane Oliveira

    Minha nossa Gabi. Assim como vocês, fiquei até tonta ao terminar de ler seu texto. Os meus olhos corriam mais depressa pelas linhas, do que meu pensamento podia interpretar. Que sensação maravilhosa que tive, parece que me transportei até esse lugar remoto. E a equipe de saúde que você comentou renovou o meu desejo tão íntimo, que é de servir nestes lugares, onde as pessoas de fato necessitam e onde poucos querem ir. Sou técnica de Enfermagem e no final do ano de 2014 termino minha faculdade de Enfermagem. E aí sim, vou pra onde o vento me levar….Bjos e abraços pra vcs. Sigam abençoados e protegidos.

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