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Nossa Tragédia Mexicana – Parte III

Diego Ferro Uncategorized

Aqui estamos para a ultima parte de nossa saga no México!! Infelizmente, esta matéria vai ao ar no mesmo dia em que sofremos um assalto!! Mas… aconteceu! Vamos que vamos, de volta ao rumo que tínhamos definido…

Vamos ao desfecho da Saga Nossa Tragédia Mexicana – Parte 3!!!

A Corrupção!

Sentados frente ao Comandante:

Comandante:              Estes jovens estão procurando um celular que seguramente deixaram em sua unidade. Você encontrou alguma coisa?

Juarez:               Não tem nada no meu taxi. Vi eles guardando o celular na mochila.

Nós:                     Mas você procurou no taxi?

Juarez:              Não. Mas sei que não está lá.

Nós:                     Mas como se você nem procurou?

Juarez:              Quando cheguei aqui pela manhã, bati os tapetes e vi que não havia nada.

Nós:                     Mas pela manhã o senhor disse que estava longe e não podia nos buscar…

Juarez:              Vim para o centro mais cedo, depois fui para longe. – respondeu após ligeira pausa para pensar.

Nós:                 Então porque não procura em seu carro? Não queremos problemas. Queremos nosso celular que estamos certos de que esta em seu taxi.

Juarez:              Tudo bem…

Juarez:               Fiz outra corrida para uma família e eles devem ter pego.

Nós:                     Onde os deixou? Vamos lá buscar!

Juarez:               Não sei onde moram. Eu os deixei no meio do centro, na rua. Não tem como localizá-los…

Neste momento a policial pediu a Juarez que buscasse seu carro para uma revista. 5 minutos depois o carro estava em frente a delegacia, com dois policiais dentro, revirando tudo! Conforme imaginávamos, o celular não estava por lá.

Voltamos a conversar.

Nós:                 Mas porque você não atendia a nenhuma ligação?

Polícia:            Estamos tentando contata-lo há mais de 3 horas…

Juarez:            Eu estava no mercado.

Nós:                 Por mais de 5 horas? A primeira vez que te ligamos eram 9 horas da manhã…

Minuto de silêncio… Os policiais todos saem da sala e conversam em uma roda de 4 policiais. Segundos depois um dos policiais retorna e pede a Juarez que o acompanhe. De dentro da sala, vimos o grupo de policiais e Juarez sumirem, subindo uma escada. Nos lembramos então que, ao descobrirmos o paradeiro de Juarez, um dos policiais havia nos dito: “Aqui ele não vai falar nada. Mas depois de espremermos bem ele irá dizer tudo…”.  Ou seja: eles entraram em um interrogatório!

Cerca de 10 minutos após eles retornam. O policial nos chama de canto e diz que não houve resposta positiva. Estavam na sala o Comandante da delegacia, o Presidente da Companhia de Taxi Urbana, 4 Policiais, nós dois e o tal do Juarez. Enquanto conversávamos com um dos policiais, já praticamente desistindo da empreitada, outros três policiais continuavam com a pressão psicológica sobre o taxista. E finalmente funcionou!

Após ameaça de acionamento da Polícia Federal e de denúncia por roubo em flagrante, o taxista confirmou que tinha posse do celular. Para nós, um alívio! Tudo o que queríamos era sair daquele lugar com nosso celular!

Dois policiais acompanharam Juarez para buscar o celular, com o carro do taxista para não gastar gasolina de carros da polícia.

Ficamos na delegacia aguardando cerca de 30 minutos. E então, começamos a conhecer a outra cara da polícia. Desta vez, não a da que faz um serviço eficiente como o que tínhamos recebido até então. Vimos a cara mais conhecida tanto por mexicanos quanto por nós brasileiros: a corrupção!

Enquanto aguardávamos, o Oficial com a segunda patente mais importante da delegacia começou a nos contar como funcionava aquela delegacia. Contou que o governo só provia a eles os uniformes, sendo que os veículos utilizados eram dos próprios policiais e que a delegacia vivia financeiramente às custas de doações – neste momento nos mostrou um boleto com as cotas de auxílio. Algumas vezes recebiam auxílios materiais – mesas, cadeiras – mas o que eles precisavam mesmo era de doações financeiras (neste momento olhando para nós dois com os olhos arregalados e sobrancelhas levantadas). O auxílio era feito através da compra dos boletos com cotas de 15 pesos e, normalmente, todos os comerciantes da região contribuíam.

A mensagem foi entendida! Eu e a Gabi conversamos e decidimos, caso o celular chegasse, contribuir comprando alguns boletos.

Os policiais chegam com Juarez entra na sala, desliza os óculos escuros para a cabeça, saca nosso telefone do bolso de sua camisa social e nos entrega! A primeira sensação é de satisfação! Felizmente se findara a seção de busca ao celular!

Mas a história ainda não acabava por ali. Infelizmente não!

Policial:           Chequem se está tudo certo com o aparelho. – nos disse.

Nós:                 Está faltando o chip e a bateria está quebrada. – dissemos com o celular aberto em nossas mãos, completamente indignados!

Todos olham para Juarez, também indignados…

Juarez:                        O Chip deve ter caído!! – fala com as palmas das mão para cima, à altura da barriga. – Os policiais riram!!!

Policia:                       Vá buscar o Chip! Se você não encontrar este chip chamo a Polícia Federal para te fichar e te prender por roubo qualificado.

Prontamente Juarez se levanta, seguido por dois policiais, e vai em busca do chip.

Então, entendemos como funcionava a relação entre as polícias. Percebemos, nos uniformes, que estávamos com a Polícia Auxiliar. Super sem estrutura! Eles não contavam com computadores, com equipamentos, com nada! O objetivo deles é: resolver os problemas sem que estes cheguem ao estado por intermédio da Polícia Federal. Ou seja, com aquela polícia, era um pouco da lei do homem, um pouco da lei para todos. Quem fichava e prendia efetivamente era a Polícia Federal. Então, utilizavam deste artifício para pressionar Juarez.

Enquanto os policiais acompanhavam Juarez até sua casa para buscar o celular, ficamos na delegacia conversando sobre futebol, sobre o Brasil, sobre o México… parecíamos bons amigos batendo papo. Na realidade estávamos super incomodados com toda a situação! Só pensávamos em sair dali! Não é nada agradável ficar dentro de uma delegacia com pessoas que não sabíamos do que eram capazes. Tínhamos medo! Enfim…

Neste ínterim, o dono do taxi chegou com seu filho de 2 anos. Perguntou o que havia acontecido e dissemos a ele toda a história. Indignado, nos ofereceu um café, um almoço, e ficou, envergonhado, aguardando pela volta de Juarez.

Somos chamados pelo Comandante para uma conversa. Nos disse:

Comandante: Não importa se o celular de vocês está ou não quebrado. Quando o taxista retornar, diga a ele que querem 10.000 pesos pelos prejuízos! Ok?

Nós:                 Ok! – nos entreolhamos sem sentir que havia a possibilidade de outra resposta. Achamos estranho, mas seguimos o show…

Aguardamos 30 minutos para que algum familiar do Juarez trouxesse a “fiança”. E nada! Então, o policial ordenou que o próprio Juarez fosse, acompanhado de dois policiais, providenciar o recurso.

Enquanto isso, ficamos na sala mais uma vez sozinhos com o Comandante.

Comandante: Preciso explicar a vocês como funciona as coisas. – o sorriso estampado! – Desse valor que ele vai pagar a vocês 50% tem que ficar com a delegacia! Sabe como é…

Nós:                      Sim claro! – respondemos sem titubear!

Percebemos o porque de todo o empenho. Viram em nós uma oportunidade para ganhar um por fora! Éramos apenas dois personagens, manipulados por uma situação desconfortável! Triste realidade!

Cerca de 40 minutos depois Juarez retorna e coloca sobre a mesa o chip. E o chip estava dobrado ao meio!

Desta vez ficamos putos de verdade! Reclamamos bastante, mas foi o próprio policial que resolveu a situação.

Comandante:           Você vai ter que pagar 10.000 pesos ao casal se quiser sair daqui sem ser fichado. E além disso terá que pagar uma multa para a delegacia.

O Comandante estava sempre calmo, com um sorriso irônico no rosto! Sabia que a situação seria resolvida com um dinheirinho na mão dele.

Com medo, Juarez me chama para uma conversa em particular.

Juarez:                        Você sabe… Todo mundo erra… – fala com cara de arrependido!

Diego:                         Mas você errou e tem sido desonesto!

Juarez:                       Mas foi um erro que não vai mais acontecer… deixa pra lá!!!

Diego:             Você errou várias vezes e tem sempre sido desonesto! Tudo o que queríamos desde cedo era o que é nosso! Passamos o dia inteiro parados aqui para descobrir que estava tudo com você. Agora temos um prejuízo. Como arrumamos isto? Você sugere que eu fique no prejuízo?? Não ficaremos no prejuízo! Precisamos ao menos pagar o que você quebrou!

Juarez:                   Então qual o valor mais baixo que podemos fazer?

Diego:                    3.000 pesos é o que precisamos para comprar uma bateria nova e um novo chip.

Juarez:                   Sou pobre. Não tenho dinheiro… Tomo mundo erra! Deixa para lá!! – disse mais uma vez com cara de arrependimento.

Diego:                    Olha só. Ser pobre não tem nada a ver com ser desonesto! Não vou sair no prejuízo! – chamei a Gabi e resolvemos reduzir para o valor de 2.000 pesos. – Fechamos em 2.000 pesos e não saímos tanto no prejuízo!

Na volta a delegacia, falei o valor ao comandante, que me retribuiu um olhar desapontado. Ele queria a metade de 10.000 e não a de 2.000!!! Seguiu adiante e pediu que Juarez fosse buscar o dinheiro.

Por volta de 40 minutos depois Juarez retorna. Mas não estava sozinho. Com ele vieram três mulheres: esposa, irmã e mãe!! Sim! O cidadão levou a mãe para a delegacia. Sentaram-se com o comandante por uns minutos sem nossa presença e depois nos chamaram.

Policial:           Qual o valor do celular? – pergunta para nós?

Policial:           Qual o valor? 10.000 pesos não é isso? – o comandante fala após perceber  que poderíamos dizer um valor menor.

Nós:                 Sim! É o preço de um aparelho novo no Brasil! Foi o que pagamos.

Policial:      Tá vendo senhora! Não estamos abusando de nada. Eles que disseram o valor e são eles que estão resolvendo as contas com seu filho. Não temos nada com isto…

Nós:                Senhora. Estamos tentando resolver a situação sem problemas para seu filho desde as nove horas da manhã. Ele não quis, demorou a entregar o que tinha e entregou tudo quebrado. O valor que estamos pedindo é para arrumar os danos. A senhora tem que falar com ele, não com a gente!

Então, a mãe vira ao comandante e diz que vai buscar o dinheiro. Retorna 30 minutos depois, nos entrega 2.000 pesos e se senta em frente ao comandante.

Neste momento, a delegacia está lotada. Estávamos em uma sala de 5 x 4 metros. O comandante sentado ao lado oposto da porta de entrada, ocupando toda a parede. À esquerda do comandante, todos encostados à parede: Diego, Gabi, o dono do Taxi, o presidente da cooperativa Urbana, um policial, a irmã, a esposa, Juarez e a mãe de Juarez! Dez pessoas!

A mãe de Juarez se pronuncia. Queria pagar metade da multa de 1.000 pesos no dia seguinte. O comandante solicitou então que deixassem o carro como garantia.

Irmã:               Mas se ele deixar o carro não tem como trabalhar!- diz revoltada

Juarez:                        Eu trago amanhã! Pode ficar tranquilo!

Policia:            Como é? – risos irônicos – Desculpa, mas você não tem como me garantir nada. Não tenho como confiar em você. Você rouba um celular, comete um delito de roubo qualificado e ainda traz sua mãe para resolver seus problemas? – dá uma risada e começa um sermão.

No sermão, indica que já teve que resolver mil problemas com irmãos, primos, amigos… E ele tem que cumprir a lei! Só isso! Aquele papo de policial corrupto se fazendo por honesto.

Policial:           Ok! Vou permitir. Amanhã até as oito da noite tenho que receber. Se não receber eu vou atrás de você! – diz o comandante, apontando para o dono do taxi que estava com o filho no colo!

Tivemos dó do dono do taxi. Parecia uma boa pessoa mas estava vendido e rendido!

A mãe coloca os 500 pesos com notas trocadas e moedas sobre a mesa do delegado. Então, todos saíram. Sem assinar nada, sem registrar nada…

Ficamos na sala e, ao ficarmos sozinhos com o delegado, entregamos o dinheiro a ele e nos despedimos.

Comandante: Quando voltarem ao México, venham para minha casa! – diz nos entregando um cartão de visitas de jardineiro, profissão que desenvolvera nos EUA.

Agradecemos, colocamos nossas casas nas costas, e saímos rumo ao ponto de ônibus, acompanhados de uma policial que só nos deixou após embarcarmos.

Para nós, foi uma experiência dura! Vimos e fizemos parte, involuntariamente, de um esquema de corrupção. Ficamos sentido pela família do taxista, mas não por ele, que teve todas as chances de resolver a situação de forma honesta. Sentimos que, assim como no Brasil, a polícia dificilmente funciona sem que atue sob interesses próprios. E que em uma cidade pequena como aquela, o poder da polícia é exercido de forma aberta e nítida!

Recuperamos o que queríamos e vimos como as experiências com as pessoas que passam pelo nosso caminho dão adjetivos aos lugares que visitamos. Neste caso, achamos a cidade terrível! Independente da beleza natural e do charme das construções, só conseguimos lembrar das pessoas que estiveram conosco naquele fatídico dia!

Conosco, fica a esperança de um mundo mais honesto para todos! Ah… isto um dia vai acontecer!!!

Converse com a gente!

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