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Nossa tragédia Mexicana – Parte I

Diego Ferro Uncategorized

Saímos da Cidade do México com a melhor sensação possível! Tudo deu certo. Tudo perfeito! Embarcamos no ônibus pela primeira vez rumando ao Sul do país: Puebla! A tomar como base a boa experiência em uma megalópoles como a Cidade do México, os prognósticos para uma cidade histórica não poderiam ser outros senão de ótimos novos dias.

Embarcamos no ônibus da ADO às 14:00hs, horário que foi estendido por conta de mais uma manhã com café reforçado e rica de informações na companhia de Guadalupe e Gustavo. Apesar de ser um sábado, o trânsito estava impossível! A viagem, que deveria levar 1:30hs, levou mais de 2 horas.

Em Puebla ficaríamos hospedados com um casal bastante alternativo que encontramos no Couchsurfing. O casal franco-mexicano, Stephanie e Maurício, é altamente conectado à vida sustentável, segundo o que pudemos ler no perfil deles no site do couchsurfing. O que não constava nos autos era o grau de sustentabilidade que eles praticavam. Ambos professores em escola e universidade, achamos que a experiência seria enriquecedora para as nossas vidas.

Chegamos à cidade de Puebla e precisávamos nos deslocar até San Francisco de Totimehuacan, que fica a 30 minutos do centro histórico. O combinado era que chegaríamos a esta cidade e o casal nos buscaria na praça central da cidade. E foi aqui que nossa trágica novela mexicana se iniciou!

Enviamos uma mensagem de texto e ficamos aguardando a resposta do casal dentro do coreto da praça. Conosco estavam outras pessoas locais e estávamos nos sentindo bastante desconfortáveis com a forma desconfiada que o povo nos encarava. Então, um mexicano estranho se aproximou e começou a falar conosco coisas que não podíamos entender. Falava e olhava para os outros locais. Preocupados com o andamento das coisas, resolvemos abandonar o coreto e nos dirigimos para a frente de uma farmácia.

Ao nos instalarmos na farmácia, recebemos uma mensagem de Stephanie nos dizendo que o carro deles havia atolado e que precisaríamos tomar um táxi ao encontro deles. Mas, como eles não tinham um endereço (isso mesmo!! Eles não tem endereço!!), precisavam explicar o caminho diretamente ao taxista. Achamos estranho mas, mesmo desconfiados, encontramos um taxista, tomamos o número do telefone do motorista e o colocamos em contato com nossos anfitriões.

Entramos no táxi e começamos a acessar algumas ruas mais afastadas da cidade. Primeiro acabou o asfalto e virou estrada de chão. Depois acabou a estrada de chão e subimos em um morro gramado, sem trilha de carro. O taxista para o carro e diz: É aqui! Desçam!

Todo agitado, o motorista desceu do carro e quase nos expulsou, indicando que a casa era após uma colina. Nos entreolhamos surpresos, desconfiados e preocupados, mas seguimos adiante. Nossa expectativa ainda era muito otimista e achávamos que passaríamos dias inesquecíveis em uma casa afastada da cidade, no meio do mato! Triste ilusão…

Foto de despedida com a vista da casaAo atingirmos o cume da colina, olhamos para baixo e vimos uma mulher subindo e acenando. Atrás dela, uma estrutura feita com muitas coisas e uma casa retangular de 5×3 metros, de alvenaria. Fomos chegando, cumprimentamos o casal empolgado e fomos percebendo que as coisas não eram exatamente o que esperávamos. Deste momento para frente eu e a Gabi nos entreolhávamos com extrema preocupação a cada “ficha que caia”! Pediram que colocássemos nossas mochilas em um canto da estrutura, no chão de terra, e começaram a conversar com a gente. Nos perguntaram se queríamos dormir com eles em um lugar meio pequeno, que imaginávamos ser a construção de alvenaria, ou se preferíamos montar uma barraca em um lugar que só tinha teto e paredes de 1 metro de altura, tudo feito com barro e materiais recicláveis.

A barraca e o galinheiroDepois de uma conversa rápida entre eles, decidiram pela barraca. Montamos a barraca na área designada, com chão de terra e com uma grade na porta. Para entrar no espaço tínhamos que pular a grade de ferro, imunda! Nas paredes, com estantes improvisadas por todo o lado, tinha de tudo: botas, ferramentas, itens de reciclagem, roupas, sapatos, e… galinhas com pintinhos!!! Sim, estávamos inclusive em um galinheiro!!!

Começamos a nos dar por conta de que aquela estrutura era tudo o que eles tinham. Era o “galinheiro” e uma segunda área de igual tamanho, porém sem paredes, que chamavam de cozinha. Posteriormente descobrimos que a komby tinha função dupla: além de transporte, era o quarto do casal, e o mesmo lugar pequeno que pensaram em nos acomodar junto a eles antes de montarmos a barraca!

Vista da parede da cozinhaDefinido o imbróglio do local de descanso, perguntamos se havia como comprarmos alguma comida pois estávamos o dia todo sem comer nada, famintos. Eles se entreolharam, riram, e disseram que a loja mais próxima estava há 40 minutos de caminhada, mas eles tinham linguiça de chouriço. Faríamos um lanche e “era o que tinha para hoje”! Como nunca gostei de chouriço, procurei nem pensar no que estávamos comendo! Mas comemos e estava ótimo! A fome é um tempero sensacional e a pimenta mexicana ajuda a mascarar qualquer gosto mais forte, camuflando um pouco daquilo que estávamos comendo.

Conversamos durante o jantar sobre o que faríamos em nossa viagem e sobre o projeto deles, que falaremos melhor em outro post. De forma geral, eles apresentam uma forma bastante radical de sustentabilidade, e são muito felizes com isto!

Falando sobre nossa viagem e próximo destino no México, a sugestão foi imperativa! Disseram:

– “Vocês não vão viajar a noite! Vão de dia! Vão para a auto estrada pedir carona! E se não quiserem isso, aguardem na estrada por um ônibus e torçam para que tenham vagas. Vocês pagarão 1/3 do valor de uma passagem na rodoviária”.

A sugestão foi prontamente descartada por nós, que estávamos inconformados por estar no meio da roça com nossas roupas imundas de barro, aumentando ainda mais nossa dificuldade em se manter com poucas roupas, que é uma limitação importante em nossa viagem. Quanto a carona, não que tenhamos algo contra, mas estamos em um país de terceiro mundo, com problemas de segurança similares aos do Brasil, certo? E como bons brasileiros, desconfiamos de tudo.

Depois do jantar saí para dar uma volta com o Maurício. De forma repentina, ele se aproxima de mim e fica a apenas um palmo de distancia! Levei um baita susto! Olho para a cara dele, desconfiado, e ele diz:

– “Não tomem atalhos! Ouçam seus instintos!”

Apesar de concordar muito com o que ele falou, não entendi o que o motivou a fazer aquilo, e muito menos a forma como ele se aproximou! Fiquei com a pulga atrás da orelha!

Acesso a porta principal do nosso Enquanto isto, a Gabi foi apresentada aos “sanitários”. O banheiro era um espaço feito também com restos de materiais e mal dava para ficar de pé dentro do espaço. E a privada…. ah a privada!!! A privada não existia! Era um balde branco de cloro, aqueles de 20 litros, que recebia camadas de material “orgânico” e pó de serragem. No popular? Cocô e pó de madeira, cocô e pó de madeira! Banho? Não chegamos nem a ver, mas a Stephanie, após mostrar a privada 5 estrelas, apontou para outro barraco, riu, e disse que havia um chuveiro improvisado! Já imaginamos o improviso do improviso! Imaginou? Ah, o balde estava cheio de sangue! Argh!

Fomos dormir. Ao organizar as coisas na barraca sentimos falta do celular. Procurei em todos os lugares. Reviramos as mochilas e nada! Ou seja, eu tinha esquecido o aparelho no carro do taxista. Este foi o evento que desencadeou em mais inúmeras situações naquela cidade perdida. O que nos restava era fazer uma busca no dia seguinte.

A noite foi um pesadelo para mim. Tirei as roupas e me enfiei dentro do saco de dormir. Coloquei a faca ao meu lado, já fora da bainha, e fiquei a noite inteira criando cenas de invasão em nossa barraca, criando estratégias de defesa e planos mortais de contra-ataques. Que noite infernal!

Já para a Gabi, o pesadelo foi real! Após ter sido alvejada pelos reflexos da alimentação mexicana, passou uma noite de rei… com o trono improvisado! A cada momento de cólica, ela suava gelado, sem saber se o pior era a dor ou a necessidade de entrar na espelunca sangrenta! Adicionalmente, tinham os infernais pernilongos, que estavam todos reunidos fora da barraca a nossa espera!

No final da madrugada, comecei a escutar o despertar dos pintinhos. Depois, a galinha. Então acordaram os cachorros e, então, o casal. Nossa noite contou com poucas horas de sono. Noite longa! Durante um dos momentos que conversamos entre os inúmeros despertares, resolvemos não ficar mais nem um minuto por lá!

Acordamos! Demos de frente com a Stephanie. Disse a ela que a noite havia sido difícil e que precisava levar a Gabi a um hospital.

Tomamos um café da manhã com salada de frutas e começamos a saga em busca do celular.

Primeiro ligamos para nosso número, que chamou e caiu na caixa de mensagens. Então, ligamos ao taxista que prontamente disse que não estava com ele. Pedimos que ele nos buscasse para levar a Gabi ao hospital, mas recusou imediatamente justificando que estava muito longe. Achamos estranha a resposta tão imediata e a recusa pela corrida! Tentamos novamente ligar para nosso número, que já se encontrava desligado. Ligamos novamente ao taxista, que não mais respondia às chamadas.

É ruim perder coisas na viagem, ainda mais no início. Mesmo com a impossibilidade de se comunicar, tínhamos a esperança de encontrar o celular no local onde o táxi nos deixou, no alto da colina. Estávamos dispostos a procurar até o fim!

Foi então que percebemos que o casal franco-mexicano tinha um coração muito bom. Todas as imagens que fizemos na noite anterior foram eliminadas com o imenso esforço que fizeram para nos ajudar!

Além de tentarem de todas as formas achar uma maneira para fazer a Gabi melhorar, como um chá de água de arroz doce, se preocuparam muito com a forma como chegaríamos na cidade. Por conta de não conseguirmos taxi, disseram que iriam nos levar. Começou então a saga da Komby! Para ligar, só com a ajuda de outra bateria! Levamos uns quinze minutos até fazer a danada pegar. Depois o desafio de subir o barranco de lama. Frustração! Impossível sair de lá.

Colocamos nossas mochilas nas costas e caminhamos morro acima. No alto do morro procuramos nosso celular em todos os cantos e não encontramos, com a ajuda deles. Tivemos a certeza de que tínhamos deixado o celular no táxi.

Seguimos caminho. Quatro quilômetros depois estávamos no centro da cidade, guiados pelo Maurício.

Apesar de toda a situação que passamos na “casa” do Maurício e da Stephanie, prefiro acreditar que de alguma forma eles cumpriram algum papel para nossa viagem!

Mas o fato de estarmos de volta a civilização, após uma noite difícil, sentimos nosso corpo e mente leves por não estar mais naquele lugar.

Enchemos nosso peito de esperança e começamos a busca implacável pelo nosso amado celular! Cenas do próximo capítulo!

Converse com a gente!

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